Mulher-Maravilha | Crítica

Com as adaptações dos quadrinhos para o cinema chegando ao ápice na última década a grande pergunta era, como Mulher-Maravilha, uma das mais famosas heroínas das HQ, nunca teve um filme só dela? Ou um destaque maior nas outras produções do gênero? Afinal, tivemos inúmeros filmes do Batman, mais de 3 representações de Superman, tanto na TV quanto nos cinemas, mas foco zero na personagem. Uma das respostas devia ser sempre “ah um filme de herói focado em uma mulher nunca daria certo né?“. Até que lá do fundo de alguma sala de algum escritório alguém deve ter tido um click.

Foto: Warner Bros

No momento onde muito se fala de empoderamento, lutar pelos seus ideais, mostrar uma nova realidade e, claro, com a DC Comics correndo para formar seu universo cinematográfico, Mulher-Maravilha (Wonder Woman, 2017) é a peça que faltava para isso acontecer e dar liga para o chamado DCU.  E não se engane, a produção é “a” peça, e digamos a joia da coroa até então.

Além de ser um ótimo longa de super-herói, que por ventura tem como principal uma poderosa heroína, a produção é um excelente filme de maneira geral. Mulher-Maravilha é bem editado, tem um roteiro caprichado e suas ótimas atuações fazem o longa abrir novos e importantes caminhos para as futuras produções.

Liderados pela fenomenal Gal Gadot, que esbanja carisma, confiança e uma inocência sem tamanho, o filme funciona de todas as maneiras possíveis: tem cenas de ação de tirar o fôlego, tem humor e piadas na medida certa e se conecta com tudo que já vimos de Mulher-Maravilha na participação da personagem lá no polêmico Batman vs Superman: A Origem da Justiça (2016).

A melhor parte talvez fique com a química entre Gadot e Chris Pine, que faz um ótimo trabalho, numa atuação bem interessante de se acompanhar. Aqui seu personagem faz os olhos do próprio espectador:   ele entende e acompanha a jornada da amazona. O ator sabe usar seu tempo de tela, deixa sua marca na produção e em nenhum momento chega a ofuscar a protagonista, pelo ao contrário, só agrega a construção da heroína.

Assim, no filme solo acompanhamos Diana Prince (Gadot) vivendo numa paradisíaca ilha com guerreiras imbatíveis, lideradas pela sua mãe, a Rainha Hipólita (uma séria Connie Nielsen). Toda a mitologia do lugar e das próprias Amazonas acaba sendo rapidamente explicado e contextualizado logo de cara. Afinal estamos em um filme de origem, tanto da personagem Mulher-Maravilha quanto do próprio Universo da DC. Então, quando o piloto Steve Trevor (Pine) ao fugir das tropas alemãs se acidenta e cai numa praia do local, numa cena que mantém a mesma inocência e curiosidade do encontro entre Ariel e Eric em A Pequena Sereia (1989), ele começa a expôr para as guerreiras o que acontece no mundo, especificamente a Primeira Guerra Mundial.

Além do magnifico local onde vivem as amazonas ser um prazer para assistir, onde a atenção se divide entre acompanhar a trama e tentar analisar todos os detalhes do mundo criado, vemos sutilmente a apresentação dos personagens e de todas as armas usadas no filme: a espada, o laço da verdade e o escudo.

Tudo é bem costurado e amarado no roteiro de Allan HeinbergZack Snyder e Jason Fuchs, mesmo com o script sendo escrito por três caras o que realmente faz toda a diferença ao filme é a direção de Patty Jenkis. O cuidado com os detalhes, com os figurinos, direção de arte e a caracterização, tanto dos personagens da ilha até a parte dos personagens na cidade grande, é uma das melhores partes da produção. Jenkis faz o filme como um todo ter uma certa leveza, mesmo com cenas de guerra, tiros de canhão e toda a complexidade da humanidade, e consegue deixar esses elementos se destacarem da produção.

Mulher-Maravilha também deixa espaço para seus personagens secundários roubarem as cenas, mesmo em pequenas doses: é o caso das atrizes Robin Wright, como a General Antiope, e Lucy Davis, como Etta Candy a engraçada secretária do Capitão Trevor.

E como num bom filme de super-herói os vilões são um caso à parte e são muito bem trabalhados também. O ator Danny Huston, como sempre, acaba por causar aquele sentimento de “eu sou o vilão do filme” só pela sua caracterização e olhar ameaçador, e sua companheira, a Doutora Veneno (Elena Anaya), mostra um lado mais médico e o monstro que poderia ter sido mais trabalhado, mesmo que todas as motivações dos dois seja explicada na trama. 

Foto: Warner Bros

Com um filme dependendo exclusivamente de mostrar a trajetória de Diana e conseguir fazer os fãs verem um contra-ponto entre a Mulher-Maravilha de atualmente (na linha do tempo de pós-eventos de Batman vs Superman), com o início da personagem apresentada no filme de 2016, quem espera por muitas cenas de ação talvez acabe por ficar um pouco decepcionado. As sequências demoram para acontecer, são espalhadas pelo filme, mas graças aos ótimos efeitos especiais e a trilha sonora que já são a marca da personagem, esse pequeno detalhe não deve atrapalhar muito a experiência do filme. 

Em Mulher-Maravilha, temos a régua para as produções do gênero elevada. Com a personagem claramente moldada em Gadot a atriz brilha e mostra o motivo de ter sido escalada para o papel: ela é o filme e o filme é ela. A DC parece ter aprendido com alguns erros do passado e nesse filme deixa suas melhores cenas para um ato final interessante e muito bem executado.

Assim, temos na produção um filme engraçado, cativante e envolvente com ótimas cenas de ação e digna da importância que a personagem tem no cenário de cultura pop e dos quadrinhos. Um modelo para as futuras gerações tanto em termos de representatividade, quanto para o desenvolvimento de super-produções. Um ótimo começo para uma excelente personagem.

Nota do Crítico:

O filme não tem cenas pós-créditos e os ingressos já estão a venda desde do dia 18 de maio.

Mulher Maravilha estréia em 1º de junho no Brasil.