O Mal Não Espera a Noite: Midsommar | Crítica

O diretor Ari Aster pegou o mundinho cinéfilo de surpresa lá no Festival de Sundance, no começo de 2018, com a exibição de Hereditário, seu primeiro longa, onde conseguiu embarcar na onda crescente que os filmes de terror passavam. A produtora A24 segurou a expectativa do público com o longa, por quase 6 meses depois da estreia no festival, até que a produção, finalmente, chegou no circuito comercial em junho do mesmo ano. E aqui com O Mal Não Espera A Noite – Midsommar (Midsommar, 2019) Aster repete o feito.

Seu novo filme, lançado nos EUA pela mesma produtora, e depois aqui,um pouco tardiamente pela Paris Filmes, soube apostar no crédito que o diretor tinha no mercado, junto com uma divulgação que gerasse um burburinho, tanto pela proposta do filme, quanto por ser “o novo filme do diretor de Hereditário” para deixar as pessoas curiosas com o filme.

E desde dos primeiros conteúdos liberados, até as poucas informações sobre a trama que foram saindo, já dava para ver que O Mal Não Espera à Noite – Midsommar seria um longa bem diferente do que já andávamos vendo ultimamente com o gênero.

Will Poulter, William Jackson Harper, Jack Reynor, and Florence Pugh in Midsommar (2019)
O Mal Não Espera a Noite: Midsommar – Crítica | Foto: Paris Filmes

A produção começou a ser vendida como “um filme de terror ao luz do dia”, onde Ari Aster não depende de criaturas encapetadas, quartos escuros, ou ainda, um banho de sangue colossal, para fazer O Mal Não Espera à Noite – Midsommar dar certo. Aqui, o diretor usa uma ambientação ensolarada que consegue passar a sensação que alguma coisa de muito errado acontece, mesmo com os personagens sorrindo, e se divertindo no que parece, num primeiro momento, ser um grande festival hippie de adoração ao sol. 

E talvez esse seja o maior mérito de O Mal Não Espera à Noite – Midsommar, entregar um longa que consegue ser assustador sem ser um filme de terror propriamente dito, onde aqui Ari Aster conta uma história chocante e perturbadora, que consegue unir o cinema de arte com o cinema mainstream de terror que vem entregando uma boa safra de produções, e está no seu melhor momento em 2019..

Em outras palavras, o grande acerto de O Mal Não Espera à Noite – Midsommar é fazer um filme que sabe dosar momentos que nos fazem sentir emoções em grande escala, independentes de sua natureza.

Assim, para o grande público O Mal Não Espera à Noite – Midsommar pode ser sim um dos longas mais incômodos do ano, e realmente não ser para todo mundo. Aster consegue unir planos visuais extremamente bonitos, com uma preocupação em criar um mundo que agregue visualmente com a história que o filme quer contar. O Mal Não Espera à Noite – Midsommar nos entrega uma grande avalanche de informações, num roteiro, escrito por Aster, extremamente preocupado em apresentar os detalhes da vasta mitologia que o diretor cria para sustentar a história.

O Mal Não Espera à Noite – Midsommar faz um daqueles filmes em que temos muito para processar numa primeira assistida, mas isso, apenas agrega para a qualidade e complexidade que a trama se apresenta ao olhar do espectador que descobre muito das coisas junto com os personagens ao longo do filme. A escura e melancólica primeira parte, momento que o roteiro nos introduz seus personagens, suas relações um pouco confusas, e claro, suas motivações para irem até a Suécia, cria um contraponto completamente oposto do que vemos nas outras 2 horas de longa.

A estranha relação que o casal Dani (Florence Pugh, fantástica e realmente a melhor coisa do filme) e Christian (Jack Reynor) vive, aliado com a presença constante dos amigos Pelle (Vilhelm Blomgren), Josh (William Jackson Harper), e Mark (Will Poulter, ótimo como alívio cômico) nos mostra como o grupo irá enfrentar a jornada até o país europeu para participar das festividades do solstício de verão.

O roteiro de Aster é cuidadoso ao nos apresentar os personagens, suas personalidades, e se preocupa em dar algum tipo de profundidade para eles ao mostrar seus laços de amizade, onde o filme realmente consegue trabalhar a questão de “o quão bem conhecemos as pessoas que fazem parte de nossas vidas?”. E assim, após sofrer com uma tragédia em família, Dani embarca para Suécia com o namorado e seu grupo de amigos, onde a fotografia de O Mal Não Espera à Noite – Midsommar se transforma como um sol nascendo, e o diretor joga brilho, luminosidade, e calor para a tela.

Aster garante que o espectador sofra junto com Dani, tenha ataques de ansiedade junto com a personagem, e nos faça sentir tudo que a personagem quer colocar para atrás na viagem. E tudo em cena acaba por ser um prazer visual, do céu azul claro, até os figurinos brancos, e as flores, passando pelos símbolos antigos, e as tradições peculiares da cultura que aquela comunidade vive. 

Em O Mal Não Espera à Noite – Midsommar a história se transcorre como uma dança lenta que parece seduzir o espectador a ficar sentado na poltrona, apenas observando a entrada das pessoas de fora na comunidade, com suas roupas escuras, e seus aparelhos eletrônicos, que se destacam no meio dos cabelos loiros e roupas claras dos moradores locais, onde a fotografia do filme brinca bastante com essa questão. Aster abusa também do cenário da comunidade com tapeçarias, e paredes cheias de símbolos que o ajudam a contar a história daquele povo de uma forma não falada, o que faz do local que povoado se reúne ser um dos personagens da trama e ter uma importância ao decorrer do filme.

O Mal Não Espera à Noite – Midsommar – Crítica | Foto: Paris Filmes

Assim, vemos o mistério central de O Mal Não Espera à Noite – Midsommar se revelar os poucos, na medida que as etapas da festividade acontecem, o público local engaja com os acontecimentos, e os convidados começa a desaparecer aos poucos. Junto com os efeitos sonoros sempre presentes em tela, O Mal Não Espera à Noite – Midsommar consegue criar um clima de angústia enorme para sabermos o que vai acontecer em cena, onde a cada ritual, e a cada nova informação que descobrimos sobre a comunidade sueca, somos surpreendidos como um roteiro bastante rebuscado, onde cada momento se faz como uma peça de um grande quebra-cabeça que a trama se apresenta.

O Mal Não Espera à Noite – Midsommar faz um filme inquietante mesmo não tendo momentos que nos fazem pular da cadeira, onde tudo é construído de uma forma lenta para nos fazer ficar em choque com aquilo que vimos. O Mal Não Espera à Noite – Midsommar não assusta pelo susto, e sim, pela forma que sua história é contada, e mostrada, em tela, onde temos uma representação do luto, e como encaramos nossas visões de morte, perda, e sacrifício.

O roteiro de Aster usa seus personagens principais, e suas personalidades diferentes entre si, para nos contar uma história profunda e cheia de significados sobre uma cultura muito diferente da ocidental, onde O Mal Não Espera à Noite – Midsommar não poupa detalhes, e realmente mostra tudo aquilo que o diretor quer passar de uma forma gráfica e violenta, onde, ao terminamos o filme, demoramos para processar tudo aquilo que nós é apresentado.

Se Hereditário tinha um apelo mais comercial para cativar um público mais acostumado como filmes do universo de terror “Invocação do Mal” já aqui não podemos dizer o mesmo de O Mal Não Espera à Noite – Midsommar. Nesse seu segundo filme, Aster faz um olhar mais artístico para as representações do medo, do trauma, e do luto.

Com um final impactante e viceral, o diretor garante que uma história de terror pode ser contada mesmo na luz do dia, com tons florais, claros, e com formas e figuras bonitas, em vez de criaturas assustadoras, mas sem deixar, ao mesmo tempo, de ser chocante e aterrorizante…..as festividades começam, antes do sol se pôr, você vai participar? 

Nota do Crítico:

O Mal Não Espera à Noite – Midsommar tem sessões de pré-estreia pagas já no dia 13. Chega dia 19 de setembro nos cinemas.

Miguel Morales

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