It – A Coisa | Crítica

Se tratando de uma das mais conhecidas obras do autor Stephen King, It – A Coisa (IT, 2017) vem com uma dura missão: se estabelecer como longa de terror autêntico, criar um filme que não gere comparações com o telefilme da década de 90 (It – Uma Obra-Prima do Medo) e ainda abrir caminhos para uma nova geração conhecer as aventuras do Clube dos Perdedores. E claro, fazer muito dinheiro para o estúdio Warner Bros.

A versão de 2017 consegue até cumprir seus requisitos mesmo com alguns problemas ao longo do caminho mas principalmente tem a façanha de se desvincular da lendária e excelente performance de Tim Curry como o palhaço do mal, Pennywise. Bill Skarsgård brilha e assusta e ele por si próprio já é um dos motivos para assistir o filme o que já conta excelentes pontos para a produção.

It - A Coisa
Foto: Warner Bros Pictures

Claro que é melhor coisa do filme nem são as cenas assustadores (que são bem assustadores digamos de passagem) mas sim a interação e química do elenco infantil. Desde de Stranger Things (2016) não tínhamos um elenco de jovens atores tão talentosos que se conectavam entre si de uma forma natural e que mostrassem uma desenvoltura em tela tão grande igual os atores desse filme.

Como falamos em IT – A Coisa, o ator Bill Skarsgård rouba todas as cenas como Pennywise fazendo uma figura animalesca, com um olhar maníaco e cativante que abusa das expressões faciais de uma forma fantástica e que dá prazer para quem assiste. No final você acaba por torcer para que o personagem apareça mais vezes pois mesmo com suas aparições bem espaçadas o ator consegue entregar uma atuação carismática e super assustadora. Uma coisa só vista assim, claro em maiores proporções, com Heath Ledger em Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008). Mesmo utilizando muita maquiagem, é possível ver que o ator usa os olhos como uma ferramenta poderosa de atuação onde ele consegue esbanjar talento ao expressar o sentimento de loucura, que mistura raiva com a inocência de um palhaço, e faz aqui um dos melhores papeis de sua carreira.

O elenco de atores do Clube dos Perdedores que durante o filme vai formando um grupo de amigos, foi muito bem escalado. A produção meio que derrapa nesse sentindo pois ao mesmo tempo que acerta monumentalmente nessa questão em termos de escalação, acaba errando em criar um número de grande de personagens na trama em que nem todos ganham um desenvolvimento por igual. No final das contas, It – A Coisa meio que auto-resolve o problema que criou com uma qualidade de escrita sem tamanha ao conseguir gerar um sentimento de conexão com os expectadores fazendo também um dos grandes triunfos da produção.

O ator Finn Wolfhard que curiosamente vem da série Stranger Things, faz um dos melhores personagens do filme e serve como um dos alívios cômicos do longa. Mesmo que às vezes, depois de um tempo, você sinta que o roteiro acabe por usar as tiradas do personagem com uma muleta, nada disso importa muito afinal, Wolfhard é hilário, tem ótimas expressões e faz de Ritchie um dos destaques do grupo. O ator Jagenden Lieberer tem também um dos personagens mais interessantes da produção, com um ar de bom moço e cativante que fica fácil em faz torcer por ele, afinal Bill, é gago, perdeu o irmão e é apaixonado pela colega Beverly Marsh. A menina que até tem um destaque na trama do filme é interpretada pela fantástica (e uma grata surpresa) Sophia Lillis, com um visual um mix de uma jovem Jessica Chastain com Scarlett Johansson e o cabelo ah lá Molly Ringwald e que acaba até sendo piada no filme, a atriz se garante nas cenas mais tensas e dramáticas do filme de uma forma fantástica.

Jeremy Ray Taylor com seu personagem inteligente que sofre bullying e que se apaixona pela menina bonita dá um prazer enorme em se ver e torcer. Jack Dylan Grazer lembra muito Fred Savage na série Anos Incríveis (1988) e seu personagem com problemas de remédios e a mãe abusiva também agregam e deixam a trama com um ar mais sério e que acaba dando uma complexidade para o personagem e para a gangue de forma geral.

It - A Coisa
Foto: Warner Bros Pictures

It – A Coisa tem um grande acerto que é não depender daqueles sustos que te fazem pular da cadeira e que te assustam por assustar. O filme também não poupa sequências sanguinárias e em uma das cenas, como por exemplo a de abertura onde o jovem Georgie (Jackson Robert Scotttem o braço arrancado pelo palhaço é assustadora, ousada e mostra muito do tom do filme. A produção sim, usa todo o suspense para criar um medo imaginário, fazendo os momentos de pré-cena de susto muito mais assustadores que os momentos de terror em si e que acabam variando sendo uma coisa entre um medo psicológico e mais visual.

O jogo de imagens, figuras e sombras deixam o visual do filme muito bem trabalhado e faz que em muitas cenas internas a atmosfera do filme fique carregada, tensa e bem fechada. Afinal de conta, muita das coisas estão lá para serem desenvolvidas e nos levam para mostrar o como eles acontecem e isso é um dos grandes acertos do diretor Andy Muschietti para a produção. Para um filme de terror, o caráter investigativo da produção pode deixar a trama um pouco parada mais pelo fato dele deixar primeiro o tom da cidade estabelecido para depois começar a ação propriamente dita.

O filme ainda faz um paralelo muito interessante sobre a verdadeira natureza do mal. Por mais que tenhamos isso representado pelo palhaço Pennywise que literalmente come carne humana, o longa ainda mostra que existem diversas variações de coisas ruins deixando bem claro isso quando as crianças tem que enfrentar seus medos, meio que como se fosse a versão do Bicho-Papão vista em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (2004). Assim as crianças acabam que enfrentando o palhaço mesmo já tendo de lutarem contra seus próprios demônios e outros terrores que são mais reais como pais abusadores e vizinhos com tendências homicidas. E que no final, acabam por mostrar a verdadeira natureza dos moradores da cidade de Derry. Todo esse clima deixam It – A Coisa com um ar mais parecido com a série de Stranger Things (que utilizou muitas coisas do primeiro telefilme de It para ser ganhar o sucesso de hoje e acabar por se tornar referência para novas produções num circulo vicioso) do que propriamente de um terror clássico como Brinquedo Assassino (1988) ou O Massacre da Serra Elétrica (1987). 

Com uma mitologia até que bem explicada It – A Coisa acaba fazendo uma produção com efeitos bem reais e que ajudam a contar uma boa história e é realmente o filme de terror que faltava em 2017. A atuação matadora e provocante de Bill Skarsgård como Pennywise faz do longa ser angustiante, perturbador e assustadoramente fantástico. Com um ótimo visual e um elenco mirim que entrega ótimas atuações é um presente para os fãs de terror que faz o filme ser uma produção que não pode deixar de ser vista. Para os fãs de Stephen King esse é realmente um longa que faz jus para sua obra. 

Nota do Crítico:

IT – A Coisa chega nos cinemas em 7 de setembro

Miguel Morales

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