Hebe – A Estrela do Brasil | Crítica

A figura da Hebe Camargo sempre é vista, e lembrada, como uma senhora desbocada, elegante, e que comandava um programa de entrevistas sempre de bom humor. Mas, a Hebe é muito mais do isso…

A história da apresentadora se funde muito com a própria história da televisão brasileira, onde, atualmente, os grandes comunicadores estão quase em extinção, assim como o formato em que Hebe sempre lutou para garantir um espaço. Num mundo, e numa época, marcada por nomes masculinos, Hebe virou referência na TV nacional, por ser mulher, por ter um programa de destaque que incomodava os concorrentes na audiência, e por ditar algumas regras, tanto de comportamento, quando de moda, por conta de seus figurinos invejáveis, e seu visual opulento e chamativo.

E, Hebe – A Estrela do Brasil então vem para mostrar todos esses lados da apresentadora e faz um filme tocante, bastante emocional, e muito reflexivo naquilo que propõe, onde sua protagonista, a talentosa Andréa Beltrão, impressiona em tela como uma das apresentadoras mais icônicas da TV brasileira.

Hebe – A Estrela do Brasil | Crítica | Foto: Warner Bros Pictures

Hebe – A Estrela do Brasil por mais que seja um filme sobre a história de vida da comunicadora, tenta sair do lugar comum das biografias que inundam o cinema, ao fazer um recorte vívido e bastante fascinante sobre uma época que Hebe, com uns 60 anos já, precisou passar por profundas mudanças pessoais, junto com outras que acompanham um país que vivia momentos políticos e sociais conturbados. No filme, não temos uma história com começo meio e fim, as coisas acabam por ficarem um pouco de passagem, como se fossem um grande recorte da vida da Hebe, mas o roteiro de Carolina Kotscho consegue ambientar bem o espectador na mensagem que o filme quer passar, o que acaba por ser bem mais interessante do que apenas bater datas.

Assim, a direção de Mauricio Farias, tem um olhar íntimo, onde a câmera parece chamar o espectador para seguir a figura da Hebe ao longo do filme, como se fosse um amigo presente. Vemos então, como a apresentadora usou a oportunidade de sua presença na casa das pessoas através de seu programa de tv para falar diretamente com os brasileiros. Afinal, em plenos anos 80, onde a trama do filme se passa, temos uma época onde a TV aberta brasileira ganhava cada mais adeptos, atingia uma legião de espectadores, e batia de frente com os jornais e o rádio, ambas mídias em queda no Brasil e no mundo. O influência que a Hebe tinha, ao falar as coisas no seu programa, era uma coisa bastante poderosa, onde a apresentadora, dizem, ajudou a eleger nomes para a Prefeitura de São Paulo, no final da década de 80, e início dos anos 90.

Conhecida por seus bordões como “A gente se vê já já….” e “Uma Gracinha…”, o roteiro de Kotscho abraça tudo que fazia a Hebe ser a Hebe, e entrega um filme que faz um estudo poderoso de personagem, onde aqui, tudo fica muito mais interessante, pelo fato de Hebe ter realmente existido, e claro, pelo talento monstruoso que Beltrão imprime para a apresentadora. 

Claro, fisicamente as duas pouco se parecem, e acho que essa nem era a intenção dos produtores. Beltrão parece também não demonstrar preocupação com isso, e nota-se que a atriz está ali se divertindo em cenas, onde Hebe – A Estrela do Brasil tem um tom de ser muito mais que uma grande homenagem para a figura carismática que Hebe foi, do que realmente quer ser uma obra contada quadro-a-quadro, num estilo documentário. A presença de Beltrão é magnética e cativante em tela, nossos olhos focam na personagem a todo instante e demoram para processar todas as informações que a Hebe da atriz nos oferece, seja o cabelo loiro armado, as milhares de jóias e os trejeitos marcantes.

Em Hebe – A Estrela do Brasil tudo é marcado por uma preocupação gigante dos detalhes, seja nos figurinos caprichados, nas locações, onde acompanhamos uma etapa da vida da apresentadora bastante atribulada, seja profissionalmente, com a troca de seu programa da Rede Bandeirantes para o SBT, quanto na vida pessoal, e que poucas pessoas conheciam, com o casamento com o empresário Lélio Ravagniani (Marco Ricca, excelente), marcado por crises de ciúmes, e o relacionamento com o filho Marcelo (Caio Horowicz), que por mais que entregue cenas boas, acabe sendo o elo mais fraco do filme.

Hebe – A Estrela do Brasil | Crítica | Foto: Warner Bros Pictures

O mais interessante de Hebe – A Estrela do Brasil, talvez, seja aproximar o espectador mais da Hebe humana, a Hebe pessoa, gente como a gente, e não só da Hebe, a lenda da TV, toda montada para apresentar seu programa. E isso fica claro, em uma das cenas, onde saindo de uma gravação, vemos Hebe dirigir seu carro, e ao parar no farol, é reconhecida por um casal no carro ao lado, onde ela acena para a dupla da forma mais descompromissada possível.

A atuação de Beltrão nesta cena, e na posterior, onde Hebe chega numa casa enorme e quase vazia é marcante pela sensibilidade que a atriz entrega para nos contar uma parte da vida da apresentadora. No filme, temos diversas dessas cenas mais contemplativas, onde quase não vemos o uso de palavras, apenas Beltrão e sua expressão fácil e corporal inundar a tela.

E claro, o longa também se destaca por ser uma verdadeira incursão pela memória da história da TV da nacional, onde deve apresentar para a geração atual um pouco mais de um tempo que está no passado, onde a curiosidade fica, a cada cena, procurar e identificar nomes de figuras que ajudaram a moldar a TV do jeito que ela é hoje, como o patrão de anos Silvio Santos (Daniel Boaventura), e as amigas de longa de data, Dercy Gonçalves (Stella Miranda), Nair Bello (Claudia Missura) e Lolita Rodrigues (Karine Talles).

Assim, Hebe – A Estrela do Brasil por mais que não mostre toda a trajetória da vida da apresentadora, conta uma parte importante da vida de Hebe Camargo, uma que ela que precisava enfrentar todos os desafios de ser mulher, da censura, e claro, da mudança da própria sociedade brasileira com seu acesso a cultura através da TV, e pelo programa da Hebe. Aqui, vemos que Hebe se armava com sua armadura própria, empunhando o microfone como espadada, sempre com suas jóias, vestidos de grife, e cabelão, onde poucos viam a Hebe como uma pessoal real mesmo e que passou por maus momentos seja por decisões políticas, empresariais, ou por maus relacionamentos afetivos. 

Hebe – A Estrela do Brasil entrega um impactante, mas sensível filme sobre um dos últimos grandes mitos da TV brasileira, onde faz uma produção à altura do tamanho que a apresentadora foi, e ainda é, para milhares de pessoas.

No final, temos um filme marcado por ótimas e intensas atuações, que fazem toda a diferença para entendermos a visão que os produtores quiseram passar sobre a apresentadora, e que mostra que o legado de Hebe Camargo está em boas mãos agora nos cinemas, e no futuro, com a série de TV em desenvolvimento. Hebe – A Estrela do Brasil não poderia ser o título mais justo e fiel para a história de uma das grandes apresentadoras da TV brasileira.

Nota do Crítico:

O ArrobaNerd assistiu ao longa à convite da Warner Bros Pictures.

Hebe – A Estrela do Brasil chega nos cinemas em 26 de setembro.

Miguel Morales

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