Doctor Foster | Crítica das 2 Temporadas

Doctor Foster é uma aquele tipo de série que você acha no catálogo da Netflix, esporadicamente, ao vasculhá-lo sem grandes pretensões. E foi, exatamente, assim que eu me deparei com essa história que, querendo ou não, por diversas vezes, deu um nó na minha cabeça, como espectador.

Produzida pela emissora BBC One, a trama inglesa é sobre uma família “perfeita”, de sobrenome Foster, constituída por mãe, pai e um filho querido. A matriarca é a personagem Gemma, interpretada pela atriz Suranne Jones (Save Me), uma médica com uma posição de destaque na sociedade, que faz de tudo para agradar seus pacientes e as pessoas ao seu redor. Já o anfitrião se chama Simon (Bertie Carval de The Crown), um promotor imobiliário, que tem uma vida relativamente estável e aparenta felicidade aos primeiros olhares. Por fim, temos o pequeno Tom, interpretado pelo, também, Tom, de sobrenome Taylor (A Torre Negra), um pré-adolescente calmo, que tem a vida transformada por conta das loucuras de seus pais.  

A princípio, tudo parece ser normal na vida dos três. Porém, em um belo dia, ao chegar no serviço, atrás da porta de seu consultório, a Dra. Foster encontra um fio de cabelo loiro no cachecol de seu marido. Cachecol esse usado no dia anterior. A partir de tal fato, ocorre o desenrolar da história. Será que seu esposo está lhe traindo? Ou será apenas uma paranoia de sua cabeça? Teorias e mais teorias entram e saem de sua mente e, por fim, ela acaba descobrindo a infeliz verdade: traição.

Para facilitar a crítica, vou separar, em trechos, sobre cada um desses principais personagens e o seriado em si, pode ser? Vou relatar suas características, suas angústias e, claro, os seus finais até aqui. Até mesmo porque o seriado tem várias nuances, sendo bastante elétrico e nenhum pouco bidimensional. Vamos lá?

Gemma Foster

Foto: BBC One.

Essa personagem é aquele tipo em que você bate o olho e já se apaixona à primeira vista. Logo no piloto, ela descobre que seu marido está lhe traindo e começa um verdadeiro jogo psicológico, tanto para com os telespectadores e as pessoas em sua vida. O mais bacana de acompanhar foi, realmente, o plano por ela desenvolvido: descobrir, por meio do famoso boca a boca que alguns amigos já sabiam, planejar uma perseguição, aliada à uma vingança e, princialmente, conversar com a amente, foi sensacional, meu povo!

A Dra. é, sem dúvida alguma, um exemplo de empoderamento feminino. Muitas das vezes, o tema traição é representado de uma forma em que a mulher sofre às mágoas, praticamente trancada dentro de um quarto comendo chocolate e tomando sorvete. Contudo, em Doctor Foster, o assunto é diferente! Ainda bem que é diferente! Precisávamos ter essa visão, afinal, a mulher pode sim se vingar, sacudir a poeira e mudar, radicalmente, a sua vida. E Gemma é um exemplo belíssimo disso, por sinal! A atuação de Suranne é incrível, engolindo o choro em vários momentos ao conversar com as pessoas e, principalmente, ao perguntar ao marido sobre a situação.

E, por falar na situação, bastante delicada, devo lembrar, temos a vingança em dose dupla: na casa da amante, em um jantar, aparentemente tranquilo, ela coloca as cartas na mesa e os pingos nos is e revela a traição. Nem vou mencionar o nome da entojo agora, vou deixar para a parte do Simon. Foi fantástico! Saiu da casa desfilando igual modelo, toda empoderada, poderosa e vingativa. Amei muito essa cena! Além disso, tivemos ela, novamente, na ativa, ao revelar os podres do ex-marido à família de sua atual companheira e e ele acaba ficando só. Na mesma hora me veio à mente o ditado popular de que “aqui se faz, aqui se paga!” E como pagamos, né?

No entanto, nem tudo é perfeição! Gemma ao longo da primeira temporada, sofre em seu trabalho por estar burlando a ética médica e não atende direito os seus pacientes. Tanto é que ela vira vítima de comentários preconceituosos, por meio de ataques virtuais na internet. Pensa que acabou? Não mesmo! Me desculpem se o texto ficar enoooorme, mas tem muita coisa mesmo pra dizer. A sua relação com Tom, não é nada simples, pois, desde o nascimento de seu único filho ela já sofria consequências sérias, como a depressão pós-parto. Sendo muito requisitada no serviço, ela quase não tem tempo para o Tom, que se envolve em brigas na escola e se torna, digamos, rebelde. Ela foi aquele tipo de mãe que dá tudo, mas, no final, não dá nada à família. De que adianta o dinheiro sem o amor? Sem carinho? Sem atenção? Agora ela está sofrendo com o sumiço do garoto, contuso, isso é conversa para as próximas linhas.

Simon Foster

Foto: BBC One.

Empresário muito bem aparentado e, também, requisitado, ele tenta esconder de todos as formas o seu segredo, seja negando à esposa, seja visitando a mãe em um asilo ou sendo discreto em encontros com seus amigos. Essa realidade, começa a mudar em sua festa de aniversário, pois Gemma, nesse momento, já descobriu o seu caso com uma jovem, amiga da família, a bela e, aparentemente, doce e ingênua, Kate Parks (Jodie Comer de Remember Me). Em uma primeira observação, parecia um caso esporádico, apenas um pulo da cerca, mas ao longo da sua investigação, a Dra. descobre que é traída a pelo menos dois anos, de um relacionamento de 15 anos. O que você faria no lugar dela? Manteria tudo em sigilo, se vingando depois ou faria um barraco daqueles de novela mexicana (Alô, Maria do Bairro!)?

Gemma ficou com a primeira opção, pois, no jantar já supracitado, ela revelou tudo – inclusive a gravidez de Kate, que ela mesma consultou na clínica em que trabalha – e Simon ficou do lado de sua amante angelical (pelo menos de rosto). Ao fazer isso, ele comprovou a sua babaquice, não é mesmo? Com isso, vai viver em Londres por dois anos e, posteriormente, retorna à cidade natal. Antes não tivesse voltado, pois, com isso, ele atarzanou a vida de sua ex e, exclusivamente, a de seu filho.

Simon tenta reverter a situação, chamando seu filho para o seu lado ao morar com ele na nova casa que teve uma festa de inauguração (e que festa, viu! Socorro!), mas não consegue. Ele continua mentindo, tanto para Tom quanto para a mãe de sua nova filha. Ele é um cara egocêntrico, que pensa apenas em satisfazer os seus prazeres sexuais, afinal, como ele mesmo disse, é da natureza do homem trair. Por favor, né? Seja homem, querido! A revolta foi grande e, no final, ele acaba sozinho e quase se mata. Deveria ter feito, mas ainda bem que não fez por dois motivos: primeiro, para que pudéssemos ter uma possível terceira temporada e, segundo, para não deixar a culpa em cima de Gemma, mulher já sofrida de tudo em quanto é jeito, né?

Tom Foster

Foto: BBC One.

O filho do casal é uma fofurice, só. Nos primeiros episódios ele é mais calado e aparenta ser um menino bom e obediente aos pais. Sofre com a morte de sua avó e tenta, na medida do possível, ficar ao lado de sua mãe, quando seu pai sai de sua vida. Porém, ao voltar, Simon insiste em querer a presença do filho todos os dias, afinal, sentiu saudades e ele, como pai, tinha esse direito. Porém, não é assim que as coisas funcionam, meu querido. Direito sim, mas mentira, não. Tom não merecia um pai safado e egoísta e sim, um pai presente e que se importa com os seus sentimentos.

Por falar em sentimentos, Tom não demonstrou muito bem as suas angústias do coração. Ele, apesar de toda a fofura, parecia um robô que tinha um único objetivo: repetir as falas do script. Sério! Chegava a ser irritante! Eu até pensei que as coisas iriam mudar com o caso de agressão na escola, mas não. Meus desejos não foram atendidos. O máximo que houve foi um choro forçado dentro do carro no episódio final da segunda temporada.

Outro ponto que me irritou bastante foi a falta de gratidão e bom senso para com a mãe: ela sofreu do começo ao fim, mas nunca, em nenhum momento, ela o renegou como filho. Já o pai, praticamente, fechou a porta na sua cara. Quem você vai defender? Nessa briga, ele acaba fugindo! Sei que essa ideia é o ponto de partida para ter uma terceira temporada, mas não gostei. Tom, você está bonito por fora, mas por dentro, nem preciso fazer maiores comentários. Por favor, amadureça em 2019.

Sobre o Seriado

Foto: BBC One.

Agora, devo destacar o ritmo lento e o jeito mais introspectivo das cenas. Essa maneira de escrever e produzir um seriado é bem característico da Inglaterra, sendo, é claro, excelente! Geralmente, os seriados do Reino Unido são de investigação policial e crimes e não traição. Esse assunto é importante ser abordado, pois é bastante atual e precisa ser discutido. Quantas mulheres passam por isso e escondem? Sem contar aquelas que têm medo do marido, seja por perderem o amor dos filhos ou mesmo medo de morrerem. Vamos combinar que Simon é agressivo também! Ele jogou a cara de Gemma na porta de vidro, minha gente! Precisava estar preso, mas vida que segue, não é mesmo? Não sou eu que escrevi os episódios!

Os outros personagens também são interessantes e os diálogos, apesar de, em muitos momentos, não fluírem muito bem, não estragam a trama envolvente. Todavia, devo dizer que achei meio bizarro a família da amante e os amigos mais íntimos apoiarem a traição como se fosse algo natural e normal. Gente, não! Trair é feio e, caso aconteça o perdão, não é algo que todos devem apoiar e aceitar. Ainda bem que Gemma abriu os olhos de todos e Simon perdeu tudo, incluindo a sua pequena filha.

Enfim, depois dessa novela, ou melhor dizendo, livro (haha! Sorry!), devo dizer que os produtores souberam aguçar a nossa curiosidade, pois eu vivi, me emocionei, angustiei e, claro, fiquei surpreso junto à Gemma em cada etapa do processo.

Agora é torcer para que se tenha uma terceira temporada! O que será que Tom vai fazer quando voltar? Será que irá voltar? Como ficará a relação de Gemma e Simon? E as pessoas da cidade? Muitas questões e poucas respostas, né? O jeito é esperar! Caso tenha mais um novo ano, com cinco novos episódios, Doctor Foster pode voltar às telinhas e se isso ocorrer deve ser apenas em 2019, já que se for seguir a linha de raciocínio das outras duas temporadas será assim, pois a primeira foi lançada em 2015 e a segunda em 2017. Além disso o roteirista Mike Bartlett não descarta a possibilidade de um retorno.

Assistiu ao seriado? O que achou das atitudes dos personagens? Deixem seus comentários abaixo e vamos prosear sobre essa série maravilhosa! Até a próxima, caros leitores!

Arthur Barbosa

22 anos, Técnico em Química de Beagá, Minas Gerais. Não consegue ficar longe da escrita de séries, por isso está nos bastidores do Arroba Nerd. É Vestibulando de Medicina e pretende adentrar nas portas da UFMG. Acredita que em um dia próximo a Netflix irá dominar o mundo.