Detroit Em Rebelião | Crítica

Em momentos de tensão tanto nos EUA quanto no Brasil, Detroit Em Rebelião (Detroit, 2017) é um filme importante por diversos fatores: Primeiro por ter uma diretora, Kathryn Bigelow, no comando de uma produção onde claramente temos uma dominação masculina nesse tipo de filmes e vindo de Guerra ao Terror (2008) e do ótimo A Hora Mais Escura (2012) ela acerta mais uma vez aqui. Em segundo, por conseguir retratar bem uma das maiores e mais intensas manifestações que já aconteceram nos EUA.

E para finalizar, pela importância em termos de diversidade que o elenco apresenta, dando a chance para todos participarem dessa história. Detroit Em Rebelião é bem feito, bem produzido mas que claro tem suas falhas.

Foto: Imagem Filmes

Com atuações bem expressivas e saltam em tela, o filme acaba por depender muito delas para dar certo, afinal, com mais de duas horas e meia de duração, a produção se apoia muito em seus atores para contar passo-a-passo de uma forma nem um pouco rápida ou ágil para os eventos principais, ou como podemos chamar aqui “Sequência do motel”. E por que isso? Toda a ação, tensão e melhores momentos estão nessa parte.

Detroit Em Rebelião se passa na década de 60 e toda a caraterização e ambientação da cidade está super acertada, assim como a fotografia do filme, para contar um pouco de como a cidade americana parou durante os dias de protestos, assaltos e revoltas. O roteiro conta uma parte dessas manifestações onde três homens foram mortos no Motel Algiers e assim, acompanhamos um grupo de rapazes negros ficarem presos de um dos quartos do fundo do motel com duas meninas brancas onde eles estão ameaçados pela polícia local.

A direção de Kathryn Bigelow sabe passar um sentimento muito grande de aflição e angustia. Com a câmera se movimentando de forma frenética junto com os personagens e contando a história do ponto de vista de vários deles vemos o filme chegar numa crescente bem interessante, para atingir o climax (a tal sequência do motel) para depois voltar ao mesmo estado. Detroit Em Rebelião mostra aos poucos todas as trajetórias dos envolvidos naquela noite, mas peca ao se arrastar por demais para explicar certas coisas que poderia ser feitas de forma mais tranquila e menos auto-explicativas.

Como por exemplo ao caracterizar o personagem de John Boyega, Dismukes como um bom rapaz, com vários empregos sendo um deles de segurança particular que acaba envolvido na sequência dos eventos. Ou que o nervoso policial Krauss (o ótimo Will Poulter) que tem um histórico de preconceito contra os negros e claramente isso afetou suas decisões como membro da policia. São situações que o roteiro poderia ter citado esse acontecimentos em vez de desenvolver cenas e mais cenas para mostrar coisas óbvias. O filme se estende por demais em muitas partes que a deixam ele muito longo e sabe pouco criar um sentimento de aflição e exige um pouco de paciência de quem assiste.

Mas a brutalidade e forma como as coisas foram retratadas deixam o filme com um jeito bem tenso, como se a qualquer momento a panela fosse estourar, o que depois de um tempo ela explode. O longa mostra as situações de um jeito um pouco provocador e não perde tempo em ser gráfico e visual principalmente nas ameaças da policia contra a população. Unindo a isso temos uma excelente trabalho de Will Poulter, onde ele faz uma mistura de loucura e obsessão bem interessante com o tipo de personagem que o filme exige.

Foto: Imagem Filmes

Outro destaque fica com o ator Algee Smith como o sonhador Larry que também nos entrega uma atuação mais próxima de quem assiste e faz reflexões interessantes sobre como os eventos afetaram a todos. John Boyega sempre tem uma forte presença em tela mas aqui é daqueles casos que tanto faz como tanto fez, com um personagem um pouco mais deslocado da história principal, o ator conta com apenas uma cena realmente interessante de verdade e parece mais assustado do que qualquer outra coisa.

Com uma história que poderia ser bastante resumida tanto em personagens, quando locações e até mesmo com a linha de eventos reais Detroit Em Rebelião é um bom filme que definitivamente vale ser visto ele. A produção falha em ser bastante dissonante entre suas partes, ampliar muito suas tramas e não focar na parte que realmente serviria de base para o filme.

Com atuações impressionantes e um elenco bem escolhido, o filme poderia ter se preocupado um pouco mais com o roteiro e em dar aquela aparada para tentar conectar um pouco mais o espectador com as motivações e preocupações dos personagens. Ao mostrar um momento importante da história, Bigelow faz de Detroit Em Rebelião uma obra que consegue honrar as pessoas envolvidas nessa série de eventos tristes.

Nota do Crítico:

Detroit em Rebelião estreia em 12 de outubro.

Miguel Morales

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