Deixando Neverland – Parte 1 & 2 | Crítica

Depois de uma estreia polêmica no Festival de Sundance no começo do ano, onde todos pareciam falar sobre o “documentário do Michael Jackson”, a produção Deixando Neverland (Leaving Neverland, 2019), enfim, chega pela HBO Brasil em 2 partes, igual foi a transmissão lá nos EUA no começo do mês.

E, em apenas uma palavra, podemos descrever o documentário: tenso!

Michael Jackson and Jimmy Safechuck in Leaving Neverland (2019)
Michael Jackson e Jimmy Safechuck – Deixando Neverland – Crítica | Foto: HBO

Deixando Neverland faz uma imersão profunda, angustiante e devastadora sobre casos de assédio sexual contra menores e pega aqui um dos julgamentos mais escancarados e comentados pela mídia nos últimos tempos para contar sua história. E, Deixando Neverland é muito mais do que ser um documentário sobre Michael Jackson (a HBO já fez um desses inclusive e foi o recorde de audiência do canal até então), é como um trauma pode trazer consequências gravíssimas para a saúde mental dos envolvidos.

Vimos as 2 partes, cada uma com 2 horas, de uma vez só, e realmente é uma tarefa quase homérica e que não recomendamos. Se o desgaste emocional para quem assiste é sentido, imagina para aqueles do outro lado da tela da TV, ou do tablet, ou do celular, que deram seus depoimentos por horas, não é mesmo?

Em Deixando Neverland, leva-se aproximadamente uns 40 minutos na primeira das duas horas para se tocar em algum assunto explicitamente sexual. Mas, quando o documentário faz isso, é de uma forma completamente inesperada, de uma vez, como se tivesse lá dando um tapa na sua cara e falando “isso é muito sério!” e “isso não é sobre o quão importante Michael Jackson foi para a música e sua habilidade como artista, e sim sobre essas vítimas”.

O começo de Deixando Neverland, deixa claro que para as famílias envolvidas tudo foram flores, o início de um conto de fadas moderno. O roteiro desenvolve, bem lentamente, como os dois rapazes conheceram Michael Jackson, em épocas diferentes, e se aproximaram do cantor. Foi o mesmo jeito, as mesmas situações e o mesmo cenário convidativo e sedutor.

E aqui, fica difícil não se envolver com as histórias das duas famílias simples, enquanto elas contam como conheceram um mega astro internacional. Assim, pelos relatos, conseguimos ver queMichael Jackson parecia mover mundos e fundos pra ter a amizade dos garotos.

Com James “Jimmy” Safechuck, temos os relatos de partes e momentos sexuais bem descritivos e bem pesados, afinal, estamos falando de crianças de 6, 7 anos se envolvendo com um adulto. Os casos contados são de revirar o estômago, onde temos histórias cheias de detalhes sexuais, e do cotidiano da relação entre eles, como trocas de presentes, jóias e objetos usados em vídeo-clipes, como se fosse, um típico clima de “romance”, coisa que o mega astro deixava no ar com os garotos.

Jimmy Safechuck adulto – Deixando Neverland – Crítica | Foto: HBO

A inocência dos pais (principalmente de Stephanie, mãe de Jimmy) em deixar as crianças com Michael Jackson, é gritante, e isso tudo, é mostrado como uma forma escancarada e de como a ilusão dessas famílias os deixaram se levar por essa situação atípica, pelos os inúmeros funcionários disponíveis, os hotéis de luxo, as viagens de 1ª classe e tudo mais.

Os relatos, como falamos, são feitos de uma forma chocante, principalmente no começo, sobre o jeito que, segundo eles, o cantor se impunha para os garotos estarem presentes na vida dele. Em uma das situações relatadas, vemos que Jackson treinava os garotos para vestirem suas roupas rapidamente, para que eles se achassem que as pessoas estavam vindo, para não serem pegos, e assim, esses momentos mostram a total consciência do perigo que o cantor sabia estar se envolvendo.

As várias portas entre os quartos, os sinos, as escadas na propriedade em Neverland, a brincadeira de se vestir rápido no hotel durante as turnês, os locais secretos, tudo isso é mostrado de uma forma muito difícil e assombrosamente impactante. Vemos que em Neverland todos os cômodos tinham brinquedos espalhados, com inúmeros doces, um grande cinema, mas nessa diversão toda, eram ali, também, os locais onde Michael Jackson levava as crianças para ter relações sexuais.

“Era tudo junto e misturado”, afirma Jimmy em uma das partes, e assim, em Deixando Neverland, vemos que os depoimentos são completamente devastadores.

A câmera foca no olhar triste, reflexivo e nos dá a certeza que os dois rapazes tem vergonha de relembrar das situações, o que também, não é por menos. O mais afetado e que deixa mais transparecer ao longo do documentário é Wade Robson que ganha um pouco mais de destaque lá na parte 2.

Afinal, a história de um garoto australiano com habilidades em dança que se muda para os EUA para seguir o ídolo, com a história da família que batalha para se manter por lá, para depois no futuro se tornar um conhecido coreógrafo em Hollywood, precisa-se de tempo para se contar.

E é isso que Deixando Neverland faz, conta a trajetória do rapaz que passou dos 7 aos 14 anos tendo relações íntimas com o cantor Michael Jackson sem que os pais soubessem e como isso afetou sua vida desde de pequeno, e como mudou a relação com seus pais, e com seus dois irmãos.

Durante um trecho ele afirma “Essa é a parte complicada, pois parecia que conhecíamos ele, ele estava sempre dentro de nossas casas na TV. Mas na real não, estávamos com ele [pessoalmente] há apenas 4 horas”.

Wade Robson in Leaving Neverland (2019)
Wade Robson adulto – Deixando Neverland – Crítica | Foto: HBO

Claro, Deixando Neverland acaba por ser uma visão unilateral dos fatos, afinal, a outra parte, a acusada, não está mais presente entre nós, mas mesmo assim, o documentário não deixa de ser tocante e bastante revelador com um tom de preocupação de realmente tentar mostrar quase todos os fatos e ângulos da história.

Deixando Neverland é extenso e oras cansativo, afinal, fala sobre a adoração aos ídolos, ao deslumbre de se estar na presença de um mega astro, na tentativa de se tornar especial e fazer alguma coisa nesse nível inalcançável que Michael Jackson fazia. Deixando Neverland também mostra e desenvolve como tudo isso afetou principalmente a família Robson e claro, acentuou os problemas entre eles quando foram jogados no furacão Michael Jackson.

A parte 2 é muito mais focada no lado investigativo, e mostra o momento quando os casos começaram a pipocar em julgamentos, no envolvimento de Jackson com o ator mirim Macaulay Culkin e na construção das consequências que os abusos tiveram na vida dos dois rapazes depois de 20 anos de terem acontecido.

Deixando Neverland é a quebra da imagem de um mito e como o poderoso sentimento de fascinação cegou as famílias, mesmo com todos os alertas estampados na cara dos envolvidos.

Desconfortável, íntimo e devastador, Deixando Neverland faz um interessante e minucioso olhar sobre a questão de abuso, por uma lente que foi amplificada por grande parte dos jornais e veículos de comunicação na década de 90, e tudo isso, numa era pré-internet e redes sociais.

Nota do Crítico:

Deixando Neverland chega em 16 e 17 de março na HBO Brasil, às 20h.

Miguel Morales

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