Coringa | Crítica

O Coringa sempre foi um dos personagens mais marcantes dos quadrinhos, e quando mostrado nos cinemas, na maioria das vezes, acabou sendo muito bem representado, muito bem obrigado. E ao longo dos anos a figura do Palhaço do Crime de Gotham City já apareceu de diversas formas, pelas mãos de diferentes atores, onde sempre foram papéis muito marcantes, seja no tom mais classudo com Jack Nicholson lá no final da década de 80, passando pela figura mais explosiva que vimos com Heath Ledger, e até mesmo uma versão mais gângster e questionável com Jared Leto.

Assim, o personagem do Coringa sempre esteve no imaginário popular e digamos na boca (vermelha) do povo como o arquiinimigo do Batman, o gênio do crime de Gotham, e uma figura louca e excêntrica. E a proposta de Todd Phillips – uma opção curiosa para assumir o filme – em criar uma nova versão do personagem, após a DC ter vindo com os filmes que dividiram as opiniões em 2016, foi uma aposta arriscada.

Mas aqui, com Coringa (Joker, 2019) vemos que algumas maluquices e os riscos tomados podem ajudar o desenvolvimento novas ideias, onde temos um estúdio se aventurar, e principalmente, confiar no material que tem em mãos.E é isso que a Warner Bros faz de uma forma quase magistral, em sua proposta, contar uma história de origem para um dos personagens mais icônicos dos últimos tempos. E faz isso de uma forma completamente impactante, brutal, onde, ao mesmo tempo, Coringa não deixa de ser um dos projetos mais interessantes apresentados até então.

E talvez, muito do que tenha dado certo para a produção entregar um dos filmes mais ousados de 2019 seja a relevância que a história tenha para o mundo caótico e de pernas para ar que vivemos hoje em dia, e claro, pela atuação monstra, viciante e magnética que seu protagonista nos presenteia.

Coringa – Crítica | Foto: Warner Bros Pictures

Coringa se firma como um daqueles filmes que deve ser bastante polarizador para o grande o público, mas não pelo fato que alguns vão achar ruim e outros não, apenas por nos entregar um filme que fala sobre assuntos que são polêmicos, indigestos e que colocam o dedo na ferida de como nós nos comportamos como sociedade, e como funcionamos em uma como um todo.

A produção ser um filme controverso não tira o mérito dele de ser bom e conseguir impactar o espectador. Coringa faz um retrato ousado, mas completamente realista sobre uma sociedade dividida, tóxica, e que coloca o personagem de Phoenix no meio do caos. Todd Phillips e Scott Silver constroem a trama do filme de uma forma que faz o espectador compreender os motivos das loucas ações que Arthur Fleck (Phoenix) apresenta…. onde aqui, fica claro, que o personagem realmente é um vilão e que concordar com elas é um caminho muito maior a ser percorrido. 

Na trama, conhecemos Arthur, um ator fracassado que trabalha como palhaço para uma empresa virando placas, sofre de problemas psicológicos, mas que tenta viver sua vidinha completamente comum dia após dia, sempre com um sorriso no rosto. A trama de Coringa consegue ambientar bem, logo em suas primeiras cenas, o espectador no mundo frio, cruel e realista de uma Gotham City marcada por conflitos sociais e políticos que apenas se escalam e deixam a população dividida na medida que uma eleição se aproxima.

Assim, vemos o sempre invisível Arthur navegar por esse momento confuso e atribulado na cidade, na medida que temos uma sociedade agressivamente excluindo e marginalizando aqueles que não estão dentro dos padrões impostos por ela mesma. Coringa faz uma alarmante e provocadora leitura de tempos onde preconceitos e intolerâncias estão cada vez mais sendo disfarçadas de opiniões pessoais, e que acabam por ser o catalizador para criação de grupos radicais.

Arthur passou sua vida toda a margem da sociedade, seja pela sua condição de risadas involuntárias, ou por viver na linha da pobreza com sua mãe. Assim, graças à um momento em determinado momento do filme, as coisas mudam e o personagem é visto, notado, e começa a sentir o sabor da adoração e de ser enxergado por outras pessoas. Phillips, então, usa o talento de Phoenix para desenvolver este personagem complexo, único em sua proposta, e cheio de camadas que o longa nos entrega e explora ao longo de suas 2 horas.

Em Coringa, Phoenix faz um dos melhores trabalhos de construção de personagem, onde o vemos se transformar, e mostrar a mudança do ingênuo, tímido e calado Arthur para a figura psicótica, narcisista e megalomaníaca do Coringa, onde nossa única reação possível é sair da sessão batendo palmas para o ator que faz seu melhor papel em anos.

Phoenix entrega um Coringa animalesco, repulsivo, e que ao mesmo tempo, te prende a atenção em todos os momentos. Diferente do Coringa de Ledger, que o conflito maior era com a figura do Batman e queria ver Gotham sucumbir ao caos apenas para mostrar um ponto de visto para seu arqui inimigo, o Coringa de Phoenix se mostra um produto de uma sociedade doente, onde para ele, a anarquia, e a promessa da desconstrução da sociedade como sociedade são muito mais interessantes.

Joaquin Phoenix in Joker (2019)
Coringa – Crítica | Foto: Warner Bros Pictures

Aqui, esse Coringa se mostra muito mais perigoso e mortal ao não se esconder nos becos, ter capangas, e não usar artifícios para conseguir aquilo que ele quer. Ele coloca a mão na massa para derrubar as máscaras hipócritas da sociedade de Gotham, e realmente como a essência de todas as versões do personagem apenas quer ver o circo pegar fogo. 

Claro, nem tudo são flores na lapela, o roteiro abusa um pouco de alguns artifícios narrativos que são usados e repetidos ao longo do filme, mas até fica difícil apontar os pontos negativos de Coringa, afinal, artisticamente o filme é impecável com tomadas que acompanham a loucura de Arthur, e mostram a realidade grotesca que o caos em Gotham se tornando, onde todos esses pequenos problemas acabam por ser fichinha perto de tudo que o longa oferece.

E em termos de produção, outro lado muito bem trabalhado, temos uma marcante trilha sonora que consegue captar os momentos mais angustiantes de uma forma crescente e que acompanha o desenvolvimento do longa. Mas, o grande destaque de Coringa fica mesmo com as atuações, onde Phoenix brilha descontroladamente, e o longa ainda se garante nas performances de Frances Conroy como a mãe do protagonista que possui um poder surreal sobre o personagem, do talentosíssimo Robert DeNiro como um apresentador de talk show que exerce um certo fascino para Arthur, e ainda, para a atriz Zazie Beetz que faz um papel menor, mas fundamental para o entendimento da trama.

No final das contas, em Coringa, temos um espetáculo visual arrepiante que se desenrola na frente dos nossos olhos numa história intensa e completamente viciante que apenas usa personagens vistos em histórias em quadrinhos para mostrar a criação de uma figura completamente desequilibrada e delirante que vive com um sorriso no rosto.

Assim, Coringa merece todos os prêmios já recebidos, e que por sorte, consiga abrir discussões importantes sobre questões extremamente difíceis e incomodas, mas que precisam ser faladas. e debatidas.  

Nota do Crítico:

Coringa chega nos cinemas em 3 de Outubro.

Miguel Morales

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