Bright | Crítica

A Netflix em 2017 veio investindo mais em grandes produções esse ano com objetivo de tentar transformar a ida ao cinema em assistir o filme dentro de casa. Mesmo gerando polêmicas nos festivais de cinema como em Cannes esse ano, o serviço de streaming conseguiu lançar bons filmes com a marca Original Netflix e então deixou para o final sua maior aposta, o drama de ação Bright (idem, 2017).

Com orçamento de filme de super-herói, o longa tem David Ayer na direção, Will Smith como protagonista e um dos maiores budgets para um longa que já foi exibido na plataforma. A preparação foi intensa, com tour de divulgação que chegou a vir para o Brasil, grandes ações de marketing e etc. Mas talvez ainda não seja com esse filme, ou nesse ano, que a plataforma vá conseguir mudar a mentalidade da famosa ida ao cinema, em Bright mesmo com toda a pompa ainda falta uma coisinha aqui e ali.

Foto: Netflix

Bright é a segunda tentativa de Ayer com uma franquia com filmes, tendo com Esquadrão Suicida em 2016 conseguindo até ficar na boca do povo, só que mais pela repercussão negativa do filme do que por qualquer outra coisa. O diretor consegue aqui nessa parceria com Smith novamente ter uma história bacana para contar, diferente e até mesmo única, mas acaba errando com uma execução falha.

A produção acerta em alguns pontos, principalmente logo no começo ao ambientar quem assiste nesse mundo alternativo e consegue estabelecer bem as relações entre os humanos, orcs e elfos. As raças têm coexistido há milhares de ano mesmo que nem sempre harmonia e a história de como todos eles vivem no mundo é narrada e mostrada em cenas muito interessantes que despertam curiosidade e tem boas passagens, que mostram as divisões nesse sistema parecido com o de castas indianos. Ao criar uma grande mitologia em cima desse mundo o filme acaba deixando a história muito rica mesmo que no final fique preso nela mesmo.

O foco acaba ficando no departamento de policia de Los Angeles onde o policial humano Ward (Smith) sofre um atentado por uma gangue de orcs. Seu parceiro orc, Jakoby (Joel Edgerton) já não é bem visto na corporação ainda é acusado de deixar o culpado pelo atentado ao seu parceiro fugir. O filme consegue mostrar bem as dificuldades do policial orc em se adaptar no departamento no meio dos humanos e pontuar mais as relações entre as raças e como cada uma está envolvida nesse mundo.

Assim quando uma patrulha de rotina acaba levando os dois policiais para um abrigo onde eles encontram uma jovem elfa (Lucy Fry) e uma relíquia mágica as lealdades da dupla desenrolam o restante da trama que mesmo tenha um ritmo ágil com cenas cheias de explosões acabam por passar um sentimento de falta de empolgação e de lugar comum muito grande. Todos querem o objeto e as coisas acabam por ficar confusas em mostrar quem quer para que e por qual motivo, principalmente quando a personagem de Noomi Rapace, a elfa Liela entra em cena.

Um dos grandes problemas de Bright fica com seu roteiro que acaba por explicar as coisas e adiantar todas suas tramas e que acaba sabotando a si próprio. O script de Max Landis, descreve os poderes do artefato mágico em uma cena para depois alguns minutos mostrar tudo que acabou de ser contado, meio que não dando espaço para quem assiste ir descobrindo as coisas junto com o filme. Em uma cena, é citado novos personagens e gangues para depois novamente algumas cenas lá na frente te mostrar exatamente aquilo que outro personagem faltou há poucos minutos não deixando o sentimento de surpresa acontecer e deixar a trama se desenrolar naturalmente.

Como se de uma maneira nada discreta o roteiro falasse para quem assistisse que tudo aquilo a pessoa não teria capacidade de entender. O próprio filme acaba dando vários spoilers do que vai acontecer em várias cenas futuras. Talvez isso funcionasse e deixasse essa ideia ser mais bem executada se fosse uma série de tv (uma coisa que a Netflix conseguiu acertar).

Em termos de efeitos visuais talvez seja o ponto mais bem acertado de Bright, no filme as caracterização estão excelentes, principalmente o visual dos orcs que são sensacionais e nada artificiais, eles parecem uma mistura de anfíbios com touros e realmente dão um tom de realismo muito grande. As caraterizações dos elfos consegue mostrar a divisão entre eles e isso fica muito bem mostrado no personagem de Edgar Ramirez, o agente elfo Kandomere, que tem um visual bastante elegante, imponente e com tons claros que se destacam na fotografia do filme que acaba sendo bastante escuro. É como estivessem no capitólio de Jogos Vozares ou na parte das pessoas com muito tempo de vida no filme O Preço de Amanhã.

Foto: Netflix

Em termos de atuação, tudo acaba sendo ok, Will Smith vem no piloto automático de seu personagem em Esquadrão Suicida mesmo não tendo um tom tão pesado aqui faz um personagem um pouco mais desenvolvido com uma preocupação em fazer a coisa certa. Joel Edgerton mesmo cheio de maquiagem tem carisma e junto com Smith a dupla tem uma boa química e conseguem trazer aquela velho e batida dinâmica entre policiais com estilos difentetes funcionar no meio de tantos efeitos especiais, raios azuis, tiroteios e porradaria. As piadas funcionam em diversos momentos e soam naturais e bem encaixadas para quebrar o ritmo de correria que o filme apresenta.

Bright no final não acaba sendo um filme ruim, mas também não empolga o suficiente, talvez pela falta de uma ameaça mais contida e não deu a louca em todos no mundo. Oscila ali no meio termo, sem brilho, numa trama sem muitas reviravoltas ou grandes acontecimentos e se perde muito na sua própria mitologia. Talvez seja um filme introdutório onde muito das coisas boas acabem passando rapidamente pela produção deixando um gostinho de que é possível fazer mais. Pelo calibre dos envolvidos é uma pena, afinal Bright não deixa de ser um bom filme apenas passa um sentimento de ser uma fumaça passando, no meio de tantos outros filmes estreando no mesmo período.

Nota do Crítico:

Bright  já está disponível na Netflix.

Miguel Morales

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