Bingo – O Rei das Manhãs | Crítica

Alô amiguinhos do palhaço Bingo, a nossa crítica chegou. O filme nacional Bingo – O Rei das Manhãs (2017) estreia nos cinemas brasileiros com uma proposta bastante interessante de contar a cinebiografia de Arlindo Barreto, ator que trabalhou como palhaço para um programa infantil durante a década de 80. Você, claro, deve ter escutado falar nele, aqui chamado de Bingo por conta dos direitos autorais, ele ficou conhecido por seu jeito irreverente de tratar as crianças e por suas piadas de duplo sentido que faziam a alegria nas manhãs e explodiram os índices de audiência.

Foto: Warner Bros

Na produção com direção de Daniel Rezende e roteiro de Luiz Bolognesi vamos acompanhar a trajetória de Augusto, interpretado pelo fantástico Vladimir Brichta. O filme vai mostrar um lado de fora do programa, de bastidores e da vida pessoal do personagem, afinal o ator nunca era reconhecido pelos fãs por sempre estar fantasiado como o palhaço. O longa vai mostrar a ascensão e queda de Augusto e como isso o levou a se envolver com drogas, que segundo contam os rumores, ele chegava usar até durante as gravações do programa infantil.

Se em um dos momentos Augusto diz que sua atuação como o palhaço é “70% inspiração, 30% Whiskey” podemos aqui dizer que o filme é “70% é talento de Britcha e 30% é edição“. Em Bingo – O Rei das Manhãs, o ator entrega uma atuação fantástica, cativante, envolvente e que prende sua atenção na tela como poucas coisas já produzidas no cinema nacional. Brichta cria um personagem sensacional, um mix de obsessão e loucura, com perfeição e consegue até mesmo nas tomadas silenciosas passar um sentimento de inquietação impressionante. É notável o quanto ele se empenhou para conseguir transmitir de um jeito natural as aflições e angustias que o protagonista vive.

Augusto é um ator que vive trabalhando de filme B em filme B até que vê a oportunidade de estar nos holofotes num programa matinal, que será importado dos EUA depois de fazer sucesso por lá. Mesmo numa emissora menor, com o produtor gringo e a diretora do programa na sua cola, ele consegue dar seu jeito e improvisar suas linhas para deixar o matutino com um jeito mais brasileiro. Leandra Leal, faz a exigente Lucia que dirige a atração, tem momentos incrivelmente muito bem escritos, atuados com Brichta e a queda de braço entre os dois, nos ocorre no melhor estilo possível, gato e rato, no caso mulher e palhaço.

Augusto Madeira como Vasconcelos, o câmera-man, está hilário e como parceiro de Augusto nas festas faz uma excelente participação e só mostra a versatilidade dele em frente as câmeras. Emanuelle Araújo como a personagem Gretchen, isso mesmo a cantora, está a personificação da Rainha do Rebolado, numa excelente escalação. Ana Lúcia Torre como a mãe, a ex-atriz de sucesso Marta, faz um crítica poderosa a própria indústria de cinema e sua personagem se assemelha a muito as personagens de Jessica Lange e Susan Sarandon na série FEUD: Bette and Joan (2017, FX) e conta como a mídia pode descartar tão rapidamente um grande talento e serve de um paralelo impressionante com a história de Augusto e seu trabalho na emissora.

Com poucos cortes, um ritmo bem ágil e sem frescura em enrolar com a história, Bingo – O Rei das Manhãs se destaca por sua excelente ambientação e pela preocupação com os detalhes, seja no figurino da época que foi muito bem feito, ou como eles se preocuparam com a mudança de algumas coisas e fazem alguns trocadilhos para os nomes reais das coisas que andam em paralelo com a história, como nomes de emissoras, artistas e programas da época.

Foto: Warner Bros

Junto com a trajetória de Augusto conseguimos ver toda a história do ator com seu filho Gabriel (Cauã Martins) que se espelha muito no pai e o filme mostra a relação dos dois de forma muito honesta e real. Inclusive todas os relacionamentos com o personagem principal são mostradas de um jeito bastante interessante e consegue casar de forma super fluida com a trama. O filme tem uma dinâmica muito rápida, com cores vivas e vibrantes que conseguem bem captar o visual da década de 1980, mas não preocupa em desenvolver quase nenhum personagem além de Augusto, o que acaba deixando ele um pouco meio unilateral.

Com uma trilha sonora fantástica e que combina com tudo que o filme quer passar, o longa mescla suas cenas de um humor bem polido e cheio de ironia, com cenas um pouco mais dramáticas de uma forma fantástica. Bingo – O Rei das Manhãs é engraçado, inteligente e polêmico e assim o filme deve se tornar um marco nos filmes nacionais, por seu excelente trabalho de produção, criação visual e claro por atuações fantásticas e digna de entrarem na galeria de grandes momentos do cinema em 2017. Britcha simplesmente se entrega 150% e isso só transporta para a exibição. Um grande acerto das produções brasileiras que nós faz tirar o chapéu para qualidade apresentada, ou no caso o nariz de palhaço.

Nota do Crítico:

Bingo – O Rei das Manhãs chega aos cinemas brasileiros no dia 24 de agosto.