As Duas Irenes | Crítica

Em um paralelo com o título, podemos dizer que As Duas Irenes (2017) é um filme que tem duas ótimas atuações, duas histórias interessantes e nos passa dois sentimentos: orgulho e empolgação. Orgulho por ver o cinema nacional em sua mais bela forma (roteiro, direção e fotografia principalmente) e empolgação por contar uma história sensível, bonita que abraça o espectador naquele mundo e te enche de pensamentos e reflexões sobre questões importantes como amizade, família e até mesmo sexualidade.

Com roteiro e direção de Fábio Meira, o filme trabalha sua trama de forma muito sutil, inteligente e não tenta enganar o espectador ou cair em um dramão desnecessário, pelo ao contrario, tudo é bem trabalhado, com a trama que se desenvolve no seu tempo com as descobertas e avanço na história sendo trabalhados de forma natural, contida onde tudo tem o seu propósito.

Foto: Vitrine Filmes

A forma como o filme começa é fundamental para você entender como ele será num todo, na trama conhecemos Irene (Priscila Bittencourt) uma jovem de 13 anos que quer saber mais sobre uma menina que também se chama Irene (Isabela Torres) e tem a mesma idade que ela. Agindo na surdina e sem que ninguém perceba, ela se arrisca para conhecer a outra Irene e acaba descobrindo uma pessoa completamente diferente do que ela esperavaE assim o filme mostra, de forma fantástica, como a personagem vai descobrindo mais sobre essa adolescente tão diferente dela tanto na atitude quanto no jeito serelepe. A produção acerta em estabelecer as diferenças entre as personalidades das duas logo de cara e até amplifica até demais essas características.

Assim, a história vai contando seus eventos de forma simples, com um ritmo tranqüilo mas sempre com aquele sentimento de que a qualquer hora alguma coisa pode acontecer, como se fosse uma panela de pressão prestes a estourar. Afinal, Tonico (um excelente Marco Ricca) tem duas famílias, duas esposas e duas filhas com o mesmo nome e nem imaginam uma das outras. O contraponto das personalidades das meninas se mostra ainda muito mais interessante e ficam muito mais claros, quando o filme também trabalha na personalidade das mães, Mirinha (Suzana Ribeiro) é mais elegante, como se fosse uma madame, com telefone, geladeira e empregada em casa e Neuza (a ótima Inês Peixoto) mais simples, trabalhadora e isso só agrega a história e ao filme.

Com uma visão apurada do que é ser adolescente e ainda carregar um segredo gigante, o roteiro de Meira é um dos maiores acertos do filme, e tem uma escrita refinada, interessante e que consegue te prender e te jogar para o conflito. Ele acerta em criar momentos que ficam melhor quando as duas Irenes estão juntas em cena e trocam olhares de auto-conhecimento. A química entre as atrizes está fantástica e as duas entregam uma atuação expressiva, vivida e muito marcante. O filme falha apenas em flertar com muitas idéias e acabar não seguindo elas em certas partes do roteiro, deixando muita coisa subjetiva e jogadas no ar. Afinal todos sabem do segredo?

A caracterização da cidade do interior faz o filme ter seu charme de produção global do horário das 6h, as roupas, os cenários rural e tudo mais deixam a atmosfera do filme com um excelente visual. Com uma paleta de cores mais pasteis, o longa faz um constraste ótimo entre as casas das Irenes, uma sempre arrumada, branca e impecável e a outra mais simples e que faz da casa um ateliê. As transições entre a trama individual de uma Irene para outra é muito bem trabalhada, assim como os conflitos que cada uma delas tem, uma com a irmã mais velha, a outra em começar a se apaixonar mas tudo fica ainda mais interessante quando as duas se juntam e criam esse afeto. Com um mistério sempre rondando com esse segredo é como se o filme conseguisse te segurar em todos os lados de uma forma fantástica sem deixar de ser angustiante.

Sensível, bonito e com uma história fantástica As Duas Irenes é um marco na produção nacional. Premiado em Gramado e exibido em Festivais de Cinema do mundo todo, o filme é um daqueles que toca o coração e acerta e muito em criar uma conexão com quem assiste. Não tem sentimento melhor do que esse ao ir ao cinema e nisso a produção tem seu maior mérito.

Nota do Crítico:

As Duas Irenes estreia em 14 de Setembro nos cinemas.

Miguel Morales

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