A Maldição da Residência Hil | Crítica da 1ª Temporada

Em outubro deste ano a Netflix Brasil criou a seção “Netflix & Chills”, que se dedica exclusivamente aos títulos de terror existentes em seu catálogo. A Maldição da Residência Hill, nova série criada, escrita e inteiramente dirigida por Mike Flanagan, de Gerald’s Game (2017) e Hush: A Morte Ouve (2016), entrou para este segmento no dia 12 deste mês e já é uma das séries mais comentadas nas redes.

A série é baseada na obra literária de mesmo título, publicada em 1959 e escrita por Shirley Jackson no qual, em sua releitura, Flanagan utilizou diversas referências e personagens da criação original, ainda que através de seu próprio olhar.

Foto: Steve Dietl/Netflix

Os dez episódios narram a história dos Crain, uma família de cinco irmãos que durante sua infância vivenciaram experiências perturbadoras dentro da residência Hill, onde viveram enquanto seus pais, um engenheiro e uma arquiteta, reformavam uma grande e antiga mansão para vendê-la por uma fortuna em seguida. Os acontecimentos, porém, resultaram na morte da mãe e na formação da personalidade de cada uma das crianças que, agora adultas, lidam com seus fantasmas, lembranças do passado e se reúnem sob a tragédia do suicídio da caçula.

A dinâmica de apresentação dos irmãos Crain se dá de forma muito interessante, através dos cinco primeiro episódios, cada centrado em um deles: no primeiro, conhecemos Steve (Michiel Huisman), o irmão mais velho que se recusa a acreditar na força do paranormal, porém que se utiliza disso para alimentar sua ganância e escrever obras de cunho investigativo. A primeira delas, que se torna um best-seller, se trata do que vivenciou na residência Hill. Importante destacar também os constantes back and forths ou as visitas ao passado e depois volta ao presente, que a série utiliza.

Logo em seguida, no segundo episódio, o contexto de Shirley (Elizabeth Reaser) é apresentado. Vive com seu marido e dois filhos no mesmo lugar que trabalha, uma funerária. Das irmãs, é a mais velha. Nunca quis seu nome e história publicada no livro de Steve e, por este motivo, evita contato com o irmão. Além disso, abriga sua outra irmã na casa de hóspedes, Theodora (Kate Siegel), quem é foco do terceiro episódio. Esta aparece em quase todos os episódios usando luvas de tecido ou couro que é posteriormente explicado: por ser extremamente sensível a qualquer tipo de toque e conseguir absorver emoções, sentimentos e até lembranças através do atrito, Theodora prefere não usufruir deste seu dom e utiliza o tecido como forma de isolamento. Apesar de socialmente ser fria e fechada, dedica sua vida em ajudar crianças, trabalhando como psicóloga infantil.

Luke (Oliver Jackson-Cohen), o mais novo irmão vivo e gêmeo da recentemente falecida Nell (Victoria Pedretti), é o foco do quarto episódio, em que é revelado seu vício em heroína e constante tentativa de recuperação em uma clínica. Luke utiliza as drogas como forma de refúgio, algo que o leve para longe de suas lembranças que o assombram. Tem uma ligação emocional muito forte com sua irmã gêmea e, por este motivo, é o que mais sofre com sua prematura morte.

Foto: Steve Dietl/Netflix

Finalmente, no quinto episódio de A Maldição da Residência Hill, conhecemos Eleanor, ou Nell. É interessante ver que, em seu contexto e desenvolvimento, é a única que não esconde seus medos; ela os encara. Nell sofre de paralisia do sono no qual, em diversas noites, acorda sem conseguir se mover ou até mesmo falar, e é tomada por uma onda de medo que em algumas vezes a leva a ter assustadoras visões com A Mulher do Pescoço Torto, uma figura que a assombra desde a infância. Apesar disso, não tenta enterrar seus problemas, ela vive como uma pessoa comum. Ao longo do episódio acompanhamos também sua trajetória romântica até se tornar viúva muito cedo, voltar a ter visões e ser atraída novamente até a residência Hill, onde morre enforcada por culpa do fantasma de sua mãe. O quinto episódio é um dos mais longos da série, com 1 hora e 10 minutos, e carrega uma grande carga emocional.

Os outros cinco episódios vão esclarecer muitas questões abertas anteriormente, principalmente o que envolve os últimos momentos da mãe, Olivia (Carla Gugino), que morreu dentro da mansão e também sobre Hugh (Timothy Hutton/Henry Thomas), o pai, que esconde diversas explicações de seus filhos, incluindo sobre a noite em que os arrastou fora de casa, antes de voltar e encontrar o corpo de Olivia.

A família Crain retorna a casa e conseguem respostas que lhe causaram anseios por anos.

A Maldição da Residência Hill trata assuntos muitas vezes comuns sobre conflitos em família, ainda que em um contexto tenebroso e sombrio. Isso fica cada vez mais claro conforme se aproxima de seu fim, uma vez que entendemos o propósito do suicídio de Olivia que, na realidade, se perde nas visões que a casa a faz ter, não sabendo mais o que é real e tendo seu medo como principal sentimento. As almas presas da residência Hill a convencem de que o mundo real é perigoso demais para seus filhos, e Olivia teme pela exposição de suas cinco crianças à vida adulta. Com isso em mente, considera tirar a vida de todos ali para permanecerem juntos na casa.

Em termos de ritmo, atmosfera e técnica de direção, Flanagan consegue dar conta do que se propôs a fazer e carregar a série em suas costas, o que muitas vezes pode ser arriscado. Um dos episódios, inclusive, utiliza o plano sequência diversas vezes, grudando o espectador na tela. Quando se trata do desenvolvimento de sua narrativa, porém, certos detalhes parecem um tanto quanto jogados.

No último episódio, o fantasma de Nell fala sobre o tempo não ser linear, e entendemos que o Quarto Vermelho é o que cada um quer ou até mesmo precisa que seja, mas é meramente citado. Não existe foco algum e, por ser uma grande revelação, acaba ficando um desejo de que fosse tratado com mais cuidado e atenção.

Outros elementos, no entanto, como o significado das metáforas, são explicados excessivamente, sem sequer precisar de qualquer reflexão. Steve cita “Eu vivi com fantasmas desde criança. […] Fantasmas são culpa. Fantasmas são segredos. São arrependimentos e fracassos”, e entendemos o que são as visões de cada Crain e por que eles as evitam, mas ainda sem a respectiva fala, já seria um tanto perceptível. Isso transmite a sensação de que a série subestima a compreensão do espectador, o que nunca é positivo. Além disso, a explicação do muro de cada personagem ser uma barreira criada para bloquear seus fantasmas também fica bem óbvia.

Um ponto muito forte na série é a caracterização dos personagens e também a semelhança entre os atores que interpretam os Crain durante a infância e a fase adulta. Isso facilita a identificação de cada um e ainda que seja um número significante de filhos, não causa sequer confusão.

Em síntese, A Maldição da Residência Hill é uma bela história de família, narrada de forma dinâmica e tratada com um cuidado, às vezes extremo, e delicadeza. Seu ritmo muitas vezes pode parecer lento, mas a cautela é necessária para a construção de personagens tão complexos. É envolvente e melancólica e, ao final do décimo episódio, é completamente compreensível ter conquistado tantos elogios em um tão curto espaço de tempo.

A Maldição da Residência Hill está disponível na Netflix Brasil.

Nota do Crítico: