A Grande Jogada | Crítica

A grande sacada de A Grande Jogada (Molly’s Game, 2017) talvez seja ter uma boa atriz no papel principal e que consegue segurar as pontas num filme com longos diálogos e monólogos que preenchem bastante tempo em tela.

Com roteiro ágil, com falas rápidas mesmo que dê uma arrastada em algumas partes e se alongue em outras, Aaron Sorkin consegue transmitir uma história completamente sensacionalista que acerta em nos fazer se importar com os personagens e nos deixar curioso com os eventos que são apresentados. E claro, isso vem muito do talento de Jessica Chastain que literalmente está all in e se entrega para viver Molly Bloom.

Foto: Diamond Films/STX

O longa que concorre ao Oscar 2018 por Melhor Roteiro Adaptado, é baseado no livro Molly’s Game escrito por Molly Bloom, uma ex-esquiadora olímpica que virou garçonete após uma concussão para depois se transformar na chamada Princesa do Poquêr e comandar quase 10 anos uma das mais exclusivas e lucrativas mesas de apostas dos EUA.

Assim tanto no livro quanto no filme, Bloom conta em detalhes como entrou para o mundo de fichas, dados e palavras como “buy in”, “fish” e “rake back”. A Grande Jogada é narrado em primeira pessoa com um voice over chiclete onde a personagem conta os bastidores dos jogos de pôquer que foram organizados para estrelas de Hollywood (sem nomes), CEOs de empresas de tecnologia (viciados em jogos) e milionários de Wall Street (prontos para gastar US$ 1 milhão na mesa). Tudo isso acaba levando Bloom a ser investigada pelo FBI (e pela Receita Federal) que suspeitava envolvimento com a máfia russa (eles estavam certos, ou meio certos como diria Bloom).

Assim, conhecemos a história em duas linhas de tempo onde cada uma acaba sendo mais interessante que a outra e a medida que voltamos no tempo queremos saber o que aconteceu naquele momento especifico da vida Bloom. Claro, o roteiro precisa ser ágil e até é em certo ponto mesmo que no final o filme acabe ficando muito longo.

Afinal, é mostrado grande parte de todos os eventos que levaram Bloom a topar em participar do jogo clandestino com um chefe super mala, indo para Bloom “roubar “o jogo e todos os clientes dele, perder o jogo, ir para Nova York com uma mão na frente e outra atrás, criar sua própria operação do zero, se envolver com a máfia, ser indiciada pelo FBI e lutar nos tribunais contra as acusações. É uma história e tanto e tudo isso é contado.

O script de Sorkin tem as mãos cheias mesmo que tenha uma ou duas cartas a mais para jogar e acaba oscilando em ser um filme de jogo, um filme de tribunal e um drama familiar e acaba juntando tudo isso numa mesma mão. É uma história interessante, cheia de momentos que prendem o espectador na medida que a situação de Bloom vai se complicando mesmo que uma hora ele acabe ficando um pouco poluído e digamos até meio denso demais.

Foto: Diamond Films/STX

Em A Grande Jogada, Sorkin faz sua estreia na direção acerta em capturar bem essas situações com jogadas de câmera bem posicionadas e até mesmo um pouco conservadoras. Para os amantes de pôquer o filme tem tomadas bacanas sobre os jogos em si e mesmo que para quem não entende muita coisa as cenas acabam sendo bem explicativas.

Jessica Chastain incendeia a tela e mostra uma personagem vibrante, energética e completamente dona de si e tenta de todas as maneiras deixar Molly um pouco mais humana e acessível mesmo que ela faça coisas completamente erradas e moralmente duvidosas. Chastain transita bem entre as diversas máscaras que sua personagem nos passa: a empresária de um negócio multi-milhonário, a filha com problemas com o pai, a réu esperando pelo julgamento e consegue fazer um trabalho excelente de composição de personagem.

E assim Idris Elba só se beneficia do talento de sua colega e realmente usa a química entre os dois para criar um advogado de defesa honesto e que faz um contra-ponto interessante com o mundo cheios de mentiras, trapaças e roubo de mãos de sua cliente. Elba tem também seus momentos e acaba fazendo, claro, um ótimo monologo para defender sua cliente. No final o personagem acaba sendo mais um apoio do que nada mais

A Grande Jogada aposta na trinca certa formada por Chastain, Elba e Sorkin para fazer um filme com diálogos afiados e rápidas falas que contam uma história longa sobre uma mulher que se destacou num mundo de homens.  Para os fãs de Soorkin é uma boa pedida em sua estreia na direção, Jessica Chastain é a rainha de copas e faz um dos melhores papéis de sua carreira.

Nota do Crítico:

A Grande Jogada estreia em 22 de fevereiro nos cinemas.

Miguel Morales

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