A Esposa | Crítica

uma experiência completamente única e deliciosa de se acompanhar

Glenn Close é um daqueles tipos de atriz de Hollywood que você enxerga se entregar 100% para um papel, independente se ela for uma estilista obcecada com cachorros dálmatas ou uma advogada inescrupulosa numa série de TV que explora o mundo jurídico. 

Mas, aqui, em A Esposa (The Wife, 2018), Close parece que realmente se transcende no seu próprio talento, onde a atriz, entrega uma atuação poderosa, ao mesmo tempo sutil e explosiva, num filme certo lançado na época certa. 

E, por certo, não estamos falando para a temporada de premiações, e sim, após a chegada dos movimentos Times Up e Me Too que pegou Hollywood, e o mundo, pelas calças ao expor e debater comportamentos tóxicos e abusivos.

Glenn Close and Jonathan Pryce in The Wife (2017)
A Esposa – Crítica | Foto: Pandora Filmes

Em A Esposa, conhecemos o casal Joan e Joe Castleman (Close e Jonathan Pryce numa química invejável), onde ele é um mega escritor, super sucedido com livros vendidos em todos os cantos do mundo e aclamado por gerações e ela (aos olhos do público) sua esposa. Quando Joe recebe um dos prêmios máximos em Literatura, o Nobel, a dinâmica do casal começa a mudar.

Claro, o quanto menos você souber sobre a trama de A Esposa, mais, talvez, o filme consiga te impactar. A sutileza de como a história é contada acaba por ser mais um dos trunfos do filme, onde no roteiro de Jane Anderson (baseado no livro de Meg Wolitzer com o mesmo nome) vemos personagem de Close, a cada cena, a cada passagem se desmanchar na frente dos olhos do espectador. Ver Close, nesse filme, em tela, é uma experiência completamente única e deliciosa de se acompanhar. Joan é como se fosse uma panela de pressão que cozinha durante anos, ressentimentos e engolidas sapos e que trabalhou incansavelmente para moldar a figura do marido (juntamente com seus textos!) para a sensação literária que ele é hoje.

A Esposa trabalha com momentos chaves na vida do casal, contados via flashbacks, para desenrolar sua história. Assim, vemos como eles se conheceram na faculdade, os papéis mudam para os atores Harry Lloyd e Annie Starke – filha de Close – onde, ele era um professor casado e ela a estudante em sua classe, jovem e cheia de idéias, numa história com um tom clássico e completamente clichê, mas que o filme acerta, em contar e mostrar que clichês são clichês por um motivo.

Assim, ao mesmo tempo, vemos todo o sentimento de angustia e aflição que Joan passa ao ver o marido participar das preparações para receber o título, onde Close consegue demostrar todas as engrenagens que se passam pela cabeça da personagem. A Esposa, devagar, nos mostra, as cerimônias de treinamento do prêmio Nobel, as conversas de Joe com a imprensa e o casal socializar com os outros vencedores, com Joan sempre ao lado do marido realizando seu papel de boa esposa. 

A Esposa navega em sua trama como estivéssemos, propriamente dito, em um livro de Joe, onde as passagens são bem colocadas na trama e que ajudam a explicar certos comportamentos na rotina do casal, e como esses momentos os moldaram para serem o que eles são hoje. No filme, sempre vemos Joan manter a serenidade e compostura, mesmo que Close consiga captar com olhares e gestos corporais que alguma coisa está errada. O momento da explosão da personagem, faz um dos ápices do filme, onde vemos, enfim, a libertação do inseto no casulo e a transformação de Joan numa bela, e dona de si, borboleta.

Christian Slater, Glenn Close, and Jonathan Pryce in The Wife (2017)
A Esposa – Crítica | Foto: Pandora Filmes

A Esposa tem ainda história paralelas que dão mais sustância para o roteiro e o ajudam a moldar essa complexa e interessante história do casal Castleman. Na trama, temos, também, o ator Christian Slater que mais uma vez abraça seu lado canastrão é um show a parte como Nathaniel Bone, um autor que deseja escrever a biografia de Joe à todo custo mas que tem planos para lançar a obra de um modo para lá de sensacionalista ao colocar tudo que pesquisou sobre o premiado autor, desde das infidelidades ao longo dos anos, até mesmo a suposta acusação que Joe é uma farsa e nunca escreveu seus próprios textos. O filme ainda usa essa história como pano de fundo para também, explorar a relação entre Joe e seu filho, David (Max Irons), um escritor aspirante que vive a sombra do pai durante toda sua vida, mas a vê a sua relação com a família também mudar quando o pai recebe o prêmio. 

No final, A Esposa é uma interessante e contemplativa história sobre uma criadora de reis que se apoia numa monstruosa atuação de Gleen Close para fazer um daqueles filmes que devem ser apreciados e louvados nessa temporada de premiações . 

Nota do Crítico:

A Esposa chega nos cinemas nacionais em 10 de Janeiro

Miguel Morales

Sempre posso ser visto lá no Twitter falando sobre o que acontece na TV aberta, nas séries, no cinema e claro outras besteiras. Uso chapéu branco e grito It's Handled! Me segue lá: twitter.com/mpmorales