Mostra SP 2018 | A Casa Que Jack Construiu

O novo filme do polêmico diretor Lars Von Trier estreou no Brasil na 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo depois de causar desconforto no último Festival de Cannes.

Confira a sinopse:

Um dia, durante um encontro casual na estrada, Jack mata uma mulher. Esse evento provoca nele um prazer inesperado e que o faz assassinar dezenas de pessoas ao longo de 12 anos. Devido ao descaso das autoridades e à indiferença dos habitantes locais, Jack não encontra dificuldade em planejar seus crimes, executá-los ao olhar de todos e guardar os cadáveres num grande frigorífico. Tempos mais tarde, ele compartilha os seus casos mais marcantes com o sábio Virgílio, em uma jornada rumo ao inferno.

O que achamos:

O thriller A Casa que Jack Construiu levanta dúvidas: Lars Von Trier é um diretor sádico ou apenas sincero?

Mais um ano em que uma obra fresca de Lars Von Trier provoca múltiplas e distintas sensações em seu público. Polêmico já se tornou característico para o diretor que, dessa vez, nos entrega o terror A Casa que Jack Construiu.

Apesar de sua peculiaridade não agradar muitos, em seus últimos trabalhos, Lars Von Trier, ainda que de forma bruta e demasiadamente crua (uma de suas principais características) retratou nada mais do que angústias humanas. Estas podem fazer com que um indivíduo comum tome ou não as decisões de seus protagonistas, mas a opção é, sim, possível. Em Anticristo (2009), o diretor retrata a culpa do prazer, substituída pelo êxtase da punição como forma de alívio da dor emocional; em Melancolia (2011), do medo desesperador da inevitável morte. Por sua vez, em Ninfomaníaca Vol. 1 e 2 (2013), ele trata do prazer sexual insaciável e a luxúria a qualquer custo.

A Casa que Jack Construiu continua a “saga”, tratando da maldade pura do homem – como o próprio diretor havia comentado antes de seu lançamento – que acompanha um serial killer narrando seus principais assassinatos, ou incidentes, como os identifica. Neles, as vítimas são predominantemente do sexo feminino, o que levantou polêmicas entre espectadores que consideraram o fato como uma provocação, em uma época de projetos como o TimesUp, criado para vítimas de violência e abuso sexual em Hollywood. O diretor negou qualquer teoria do tipo.

No filme, temos Jack constantemente conversando com uma figura que posteriormente é identificada como Virgílio, um senhor que ouve suas confissões em meio de relatos. Ele acompanha Jack em sua visita ao inferno.

É interessante como Lars Von Trier coloca a necessidade que o protagonista tem de matar. Em muitas outras histórias vemos assassinos performando pelo prazer, pela sensação de êxtase ou até mesmo por vingança, buscada por traumas de sua fase infanto-juvenil. Jack, no entanto, pratica a violência pelo ego e aquietação da culpa. Um se torna refúgio do outro, o que inevitavelmente gera um ciclo, um vício.

Em termos do que é visualmente exuberante no filme, sua violência explícita e derivados, o filme não pesa, contradizendo o que já foi dito a seu respeito anteriormente. É evidente que assistir a uma criança morrer com um tiro na cabeça não causa uma sensação positiva, mas diversas obras de terror não se censuraram ao expor cenas muito mais violentas do que as vistas em A Casa que Jack Construiu.

Como um novo filme de um renomado diretor europeu, o filme pode despertar emoções não tão positivas. Como a nova obra de Lars Von Trier, pode roubar suspiros.
Como um filme de terror ou um thriller que narra experiências perturbadoras de um serial killer, pode acabar em aplausos.

Nota do Crítico:

Visto na 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
Previsão de estreia no circuito nacional para 01 de novembro