43ª Mostra SP | A Vida Invisível – Resenha

A Vida Invisível ganhou o prêmio principal da Mostra Um Certo Olhar, no Festival de Cannes de 2019 e foi escolhido para ser o representante do Brasil no Oscar 2020!

Sinopse:

Rio de Janeiro, 1950. Eurídice, 18, e Guida, 20, são duas irmãs inseparáveis que moram com os pais em um lar conservador. Ambas têm um sonho: Eurídice o de se tornar uma pianista profissional e Guida de viver uma grande história de amor. Mas elas acabam sendo separadas pelo pai e forçadas a viver distantes uma da outra. Sozinhas, elas irão lutar para tomar as rédeas dos seus destinos, enquanto nunca desistem de se reencontrar.

O que achamos:

Se pudesse falar sobre A Vida Invisível em uma única frase, ela seria: Brasil muito bem representado no Oscar, obrigado

A adaptação do diretor Karim Aïnouz para o livro A vida invisível de Eurídice Gusmão, da autora Martha Batalha, faz um drama melancólico, sublime e realmente tocante, onde em tempos de opressão, e preconceitos disfarçados de opinião, não tem como não sair comovido da sessão do longa metragem.

A Vida Invisível faz em sua narrativa um bom novelão, que representa, em suas diversas personagens, as vidas de mulheres comuns que poderiam ser nossas esposas, filhas, e irmãs, e que poderiam ter suas vidas desaparecidas por conta de escolhas que não foram propriamente delas, e sim, forçadas por uma sociedade ainda extremamente patriarcal.

Assim, com o olhar afiado de Aïnouz, e a câmera sempre bem posicionada para captar as emoções nos rostos das atrizes, A Vida Invisível conta a história de milhares de mulheres pelos olhos das irmãs Gusmão, as jovens Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stockler) que mesmo com personalidades diferentes se encontram unidas contra um pai controlador, em pleno Rio de Janeiro nos anos 50.

A Vida Invisível poderia se passar em qualquer lugar do mundo, e sua trama trata de uma história universal sobre irmandade, amor, e família, mas a caraterização caprichada, os figurinos com uma preocupação enorme com detalhes, e até mesmo a cinematografia escolhida, deixam o longa com uma cara carioca e que transborda Brasil em todos seus momentos.

A Vida Invisível abraça de uma brasilidade enorme para contar os encontros e desencontros dessas mulheres que lutam para sobreviver, amar, e serem amadas no meio da loucura de uma Rio de Janeiro em pleno turbilhão de mudanças.

A vida de Eurídice e Guida, seguem caminhos distintos, e ao longo dos anos, vemos a dor e as mágoas que as irmãs levam para si depois de anos separadas, mas curiosamente vivendo na mesma cidade sem nunca terem se esbarrado. Em suas cartas para a irmã, Eurídice fala “Querida irmã, não perco as esperanças que você volte ao Brasil e que nos encontraremos, por o acaso, no meio da rua…”

A narração da voz rouca e potente da atriz Carol Duarte dá um tom mais poético para o filme, onde vemos a batalha que as personagens enfrentam em diversos momentos, tudo pelo olhar feminino penetrante e magnético que a dupla passa em atuações sinceras e apaixonantes.

Assim, vemos as duas precisarem desvendarem as questões da vida como conhecer, pela primeira vez, um corpo masculino, descobrir o sexo, os desafios do casamento, de serem abandonadas, a gravidez, onde tudo é contado em A Vida Invisível de uma forma sutil, cheia de simbolismos, e representações de ideais, sonhos, e decepções.

A trama abraça seu lado de folhetim, tão marcantes na cultura popular brasileira, com reviravoltas na história dolorida que as duas irmãs levam, e com as buscas uma pela outra ao longo dos anos. As atrizes principais esbanjam talento e comoção em papéis difíceis, entregam atuações marcantes e que trabalham muito com expressões corporais. Stockler vende a dor de sua personagem a cada cigarro, a cada golpe que leva do destino que parece se manter forte em a deixar separada de sua irmã. Já Eurídice amadurece rapidamente ao longo do filme, onde Duarte consegue evoluir sua atuação ao longo dos anos em que vemos a sua personagem criar seu filho, e lutar como mãe solteira.  

E quando A Vida Invisível parece que não tem mais como nos surpreender e encantar, o espectador é arrebatado com uma passagem de tempo em que sobre agraciados com a presença monumental de Fernanda Montenegro em tela que ilumina e rouba a cena em todos os poucos minutos que aparece.

As cenas da atriz, como a versão mais velha de Eurídice, são de dar um nó na garganta, são poderosas, humanas, e carregadas de sentimentos em que sua personagem nos mostra décadas de emoções guardadas e são escancaradas em tela quando encontra suas cartas perdidas e que nunca foram entregues para sua irmã.

Os momentos finais nos entregam anos de uma vida passada na esperança de um reencontro que nunca veio, onde A Vida Invisível termina sua história no seu ápice emocional, e o cinema brasileiro se mostra mais uma vez em uma de suas melhores fases, não mais invisível para os olhos de nós mesmos e do mundo. Uma história impactante e arrebatadora. 

Nota do Crítico:

A Vida Invisível chega nos cinemas, em todo o Brasil, em 21 de novembro.

Filme visto na 43ª Mostra Internacional de São Paulo

Miguel Morales

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